A Lótus Azul no Egito Antigo! [Portas da Percepção Ed. 258#]

Portas da Percepção

hempadao 15 fevereiro, 2014

por Catiusia Gabriel

A identidade de plantas conhecidas popularmente como “lótus” é geralmente confusa, uma vez que pelo menos duas espécies são assim denominadas, sendo o uso do mesmo termo uma provável relação de ambas à enteogenia. Nymphaea caerulea (lótus azul, lírio azul, lótus sagrado, lótus do Nilo) é o nome científico da espécie de planta aquática que habita as planícies alagadas do rio Nilo. Já Nelumbo nucifera (Lótus, Lótus Branco) é a espécie do mais comumente conhecido como lótus, planta que teve menção na “Odisséia” e é reverenciada e sagrada até hoje na prática da meditação no Tibete. Apesar de seu poder enteógeno, as duas espécies não são parecidas e nem se relacionam mais estreitamente na botânica, nem habitam regiões próximas. Esclarecendo as diferenças, tratar neste artigo da espécie Nymphaea caerulea e usarei a denominação comum “lótus-azul”.

 

Esta espécie foi uma das plantas rituais mais importantes do antigo Egito. A planta é nativa do delta do Rio Nilo, onde crescia extensamente nas planícies alagáveis e também era cultivada pelos egípcios em corpos d’água naturais e artificiais, como em tanques irrigados nos jardins. Esta espécie é endêmica da região do Nilo, sendo que também era encontrada com menor frequência em zonas úmidas na atual Palestina. Hoje, a planta desapareceu quase completamente de seu hábitat natural e está seriamente ameaçada de extinção.

As escavações nos sarcófagos dos antigos faraós revelaram fatos interessantes sobre uma possível vida espiritual dos habitantes egípcios. Azru, uma das múmias exumadas na região do Nilo,  que teria vivido ali por volta de 2700 a.C., teve o corpo submetido a um exame de espectroscopia de massa, onde não foram encontrados indícios de quaisquer drogas ou analgésicos, embora tenham sido revelados fitosteróis, bioflavonóides e outros compostos encontrados em Nymphaea caerulea. Mesmo assim, muitos historiadores acreditam que a flor de lótus azul tinha propósitos puramente simbólicos no Egito antigo, sustentando que não há evidências plausíveis que comprovem sua ingestão ou uso com propósitos sagrados ou mesmo medicinais.

Indícios de flores de lótus azul foram encontrados espalhados sobre o corpo de Tutancâmon, um dos faraós mais jovens e mais conhecidos do antigo Egito. Um retrato do jovem rei mostra uma flor de lótus azul emergindo de sua cabeça, sendo a flor um símbolo divino, representando o olho que tudo vê. O Livro Egípcio dos Mortos menciona em seu texto que “o desejo dos faraós era transformar-se na flor azul da água sagrada, de modo que seu corpo possa ter novo nascimento e ascender ao céu diariamente”, o que parece estreitamente ligado ao ciclo diário da flor, que ao amanhecer abre-se e ao fim do dia fecha-se e submerge na água, o que para os egípcios era a representação do renascer.

Escavações de arte antiga e hieróglifos já revelaram retratações do lótus azul com outras plantas de poder, como mandrágora (Mandraga officinarum) e flores de papoula (Papaver somniferum) e acredita-se que essas imagens representam uma receita iconográfica – uma bebida psicoativa ritual que consiste em brotos de lírio, frutas de mandrágora e cápsulas de papoula. Além do Egito, Nymphaea caerulea foi recentemente identificada como elemento presente em grande parte da mitologia e da arte do Oriente Médio, e também tem sido proposta como uma identidade potencial para o Soma, na medicina Ayurveda.

De fato o lírio azul está intimamente ligado à história do Egito, onde devido a tantas menções, obras de arte e representações da planta, acredita-se que ela não possua apenas significados simbólicos, mas que tenha sido efetivamente consumida com propósitos rituais e sagrados. Muitas pinturas antigas retratam o lótus azul em conjunto com símbolos relacionados ao vinho e entre os itens consumidos e não somente entre os objetos de decoração. Há evidências mesmo que nymphaeas foram deliberadamente cultivadas em tanques de água conectados por canais construídos nos jardins egípcios. As flores estavam em oferenda, seja aos mortos, deuses ou como presentes aos visitantes nobres.

A flor de lótus, com o centro de cor amarelo forte, era para os egípcios à semelhança do Sol, que ao emanar das águas do Nilo no início do dia, trazia o renascimento e renovação. E esta é uma crença muito sedimentada na cultura egípcia, basta lembrar um dos maiores símbolos deste povo antigo, as múmias, meio pelo qual eles acreditavam no renascimento do corpo e alma em tempos futuros.

Saiba mais

entheology.com

shaman-asutralis.com.au



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